Será que tem um espacinho aí?

1 jul

Rosely Sayão, Folha de S.Paulo – 28/06/2011

E agora, o que faço com essa criança?
 
AS FÉRIAS chegaram e muitos pais ainda não têm a menor ideia do que farão com os filhos nesse período.

Algumas famílias já programaram viagens, que parecem ser a solução ideal, já que, desse modo, os adultos podem até descansar enquanto os seus filhos aproveitam tudo aquilo que os hotéis e/ou as babás disponíveis podem oferecer a eles.

Alguns pais deixarão os filhos na escola. É, caro leitor: muitas delas permanecem abertas para proporcionar lazer às crianças, enquanto os pais trabalham.

Essas instituições descobriram duas coisas importantes: os pais não sabem o que fazer com os filhos e não contam mais com aquela rede social de conhecidos, vizinhos e parentes que poderia acolher as crianças quando eles mesmos não podem estar presentes.

É no período de férias que melhor podemos perceber o quanto, no mundo contemporâneo, os pais se transformaram em tecnocratas na relação com os filhos.

Eles cumprem religiosamente todas as suas funções “oficiais”: levam, trazem, cuidam, supervisionam e acompanham os afazeres da criança, principalmente os escolares.

Também batalham incansavelmente para proporcionar à prole do bom e do melhor. Mas, no final das contas, não sabem ao certo de que maneira se relacionar intimamente com os filhos.

Nunca os pais foram tão próximos dos filhos até então. Um pensamento nostálgico existe: o de que, hoje, as mães não têm mais tempo para os filhos como tinham as mães de outrora, quando elas ficavam em casa e não mantinham ambições profissionais ou trabalho remunerado.

O fato é que sim, muitas mulheres ficavam em casa, mas não dedicavam esse tempo todo aos filhos e sim à administração da casa, da família, dos afazeres domésticos. As crianças viviam ao redor da mãe, mas não precisavam dela tanto quanto hoje as crianças precisam.

Por exemplo: antigamente, as questões escolares eram de responsabilidade exclusiva da criança -e os pais não se ocupavam disso.

Hoje, os pais assumiram a vida dos filhos, mas não se relacionam intimamente com eles. O paradoxo é que eles invadem a privacidade das crianças e dos jovens, que nem conseguem ter na escola seu lugar exclusivo: têm de compartilhar tudo o que lá acontece com os pais. Há pais diariamente nas escolas, não é verdade?

Mas voltemos às férias. Esse período poderia ser uma excelente oportunidade para os pais exercitarem aquilo que um dia escolheram fazer em suas vidas: educar.

E o que isso significa? Significa apresentar o mundo, em seus detalhes, aos mais novos. Em outras palavras: educar é compartilhar algo de nosso domínio com o outro -com paciência e generosidade.

As viagens, por exemplo, podem ser uma experiência fantástica para a criança se, pelo caminho, ela for despertada, questionada, encorajada a pensar sobre o que está vendo, ouvindo, sentindo.

E isso pode incluir desde a geografia local até a matemática das distâncias.

A leitura é outro exemplo interessante. Ler junto com a criança, e não apenas para ela, pode ser uma aventura para ambos.

Conversar sobre o enredo, questionar as atitudes de determinado personagem, inventar outros desfechos possíveis para a história podem ser boas estratégias de aproximação entre os mundos infantil e adulto.

Mas a melhor estratégia é a do simples convívio caseiro. Compartilhar com os filhos o entusiasmo por determinadas atividades corriqueiras pode ser uma bela herança, a mais significativa de todas.

A transmissão de pequenas habilidades: deixar a criança ajudar na cozinha ou na organização da casa, cuidar das plantas, contar para ela os casos dos antepassados, ou apenas passar o tempo juntos. O convívio com os filhos pode ser bem simples quando há espaço na vida dos pais para eles.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)

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