Alma estrangeira

18 abr

por Pat Guanais

A idéia de viver no exterior me seduziu desde cedo. Sendo filha de imigrantes – meus pais são portugueses e faço parte da primeira geração nascida no Brasil – cresci com uma dupla influência cultural. Nos nossos Natais ao invés do tradicional peru, tínhamos sempre à mesa um generoso prato de bacalhau. O sotaque lusitano sempre esteve presente no nosso linguajar baiano e as histórias fantásticas do meu avô materno sempre me fizeram viajar para além-mar.

Meus pais também sempre fizeram questão de nos levar a Portugal de férias, o que acontecia a cada 3-4 anos mais ou menos. Lembro das viagens de um mês que fazíamos percorrendo as estradas sinuosas no interior do país. Eram divertidas para mim e meus dois irmãos, mas imagino, hoje como mãe, que deviam ser extremamente exaustivas para os meus pais. Naquela época as malas eram literalmente sem rodinhas. Lembro da primeira ida do meu irmão à terra de Camões (na época com pouco mais de um ano) e da mala abarrotada de papinhas Nestlé que minha mãe fez questão de levar em mãos durante o longo vôo.

Hoje, olho para trás e admiro a coragem de meus pais ao enfrentar aqueles meses com tanta energia. Em algumas dessas viagens seguimos de Portugal a Paris, pernoitando pela Espanha. Lembro de episódios engraçados, meus pais tentando escolher comida para nós em uma cidadezinha da França sem saber sequer uma simples palavra em Francês. De alguma forma essas memórias sempre me fascinaram e na primeira oportunidade resolvi dar asas à minha alma estrangeira.

Com 19 anos segui para um período de 8 meses em Orlèans, uma cidade no interior da França, pertinho de Paris e onde moravam 4 irmãs do meu pai. Além da conexão com uma família que pouco conhecia, pude mergulhar em uma nova língua e em uma cultura que considerava fascinante. Engordei alguns quilos como todo adolescente em sua primeira aventura estrangeira e trouxe na mala o desejo de seguir descobrindo o mundo.

Alguns anos se passaram e depois de um tempo de volta a Salvador e um período recém casada em Brasília, mais uma vez o destino chamava para uma nova aventura. Dessa vez o desafio era viver por 4 anos com meu marido em Nova Iorque. A idéia de morar nos Estados Unidos nunca se mostrou muito atrativa para mim. Mas Nova Iorque tinha a promessa de ser diferente. E foi. Chegamos lá em um lindo dia quente de verão, 26 de agosto de 2001, duas semanas antes dos fatídicos ataques do 11 de setembro. Mas o saldo da experiência foi mais do que positivo e o meu amor pela Big Apple se tornou visceral.

Quando há menos de um ano meu marido trouxe novamente a idéia de voltarmos a morar no exterior, dessa vez com a nossa pequena de 3 anos, confesso que pela primeira vez vacilei. Uma mistura de excitação, medo e preguiça tomaram conta de mim. A primeira coisa que imaginei foi estar longe, realmente longe da família e dos confortos da nossa sociedade. A mão de obra doméstica no Brasil é fonte de muita controvérsia. Uns amam, outros abominam, muitos questionam o seu papel social, mas a verdade é que para quem tem filhos contar com braços extras para as infindáveis tarefas do cotidiano representam um grande alívio.

Não tivemos muito tempo para pensar, e assim, na cara e na coragem resolvi abraçar a idéia e seguir, com as asas que sempre guiaram a minha alma, acreditando que todas (ou pelo menos quase todas) essas questões se resolveriam eventualmente. E assim foi. E assim tem sido. Para quem fica curioso em como é possível dar conta do recado e ainda ter tempo para si, ai vai a resposta: é duro, mas é possível!

A primeira dica é baixar expectativas e padrões e seguir sendo feliz como dá. Embora eu seja obsessiva com limpeza, a verdade é que não dá para seguir com os padrões que construímos no Brasil, por que além da casa, dos filhos, e do marido, ainda é preciso achar tempo para nós! Não demorou muito para que eu relembrasse as maravilhas da praticidade americana e deixar de lado parte da minha consciência ecológica, afinal quase toda praticidade gera desperdício…Rolos de toalhas de papel gigantescos, produtos específicos para limpar cada parte da casa, paninhos descartáveis e por aí vai. Tudo fica brilhando rapidinho, mas o meio ambiente definitivamente não agradece…

Cozinhar e cuidar da roupa também parecia um bicho de sete cabeças no início, mas aos poucos fomos criando estratégias para facilitar nossa rotina. Um steamer foi a primeira compra. Essa máquina a vapor, muito comum nas nossas lojas brasileiras, desamassa as roupas que é uma belezura! Também descobrimos uma lavanderia na nossa vizinhança que cobra apenas U$ 1,99 por peça para lavar, passar e engomar quando necessário. De resto a roupa sai da secadora e é apenas dobrada e guardada. Um amassadinho aqui e outro ali é esperado (e aceito!) por aqui.

Os desafios são muitos e eu precisaria de alguns posts para compartilhar cada um deles. Mas oimportante mesmo é ressaltar que até então o saldo dessa experiência tem sido bastante positivo. Apesar do cansaço e da saudade dos nossos confortos, abraçar uma nova cultura continua me seduzindo e me energizando como da primeira vez. Poder transmitir essa excitação e possibilitar essa experiência para a minha filha tem sido algo muito especial. Ela, no auge dos seus 3 anos de vida, vem enfrentando corajosamente e graciosamente cada um dos desafios que essa jornada tem lhe oferecido e, embora muitas vezes com o coração apertado, olho para ela e me encho de orgulho e emoção.

Se as nossas escolhas são acertadas ou as melhores para os nossos filhos não dá pra saber. Talvez o tempo nos mostre. Mas esse momento tem me permitido perceber essa capacidade incrível de adaptação presente nas crianças e tem me feito pensar que na verdade todos nós nascemos assim, abertos e flexíveis. São as circunstâncias da vida, e as nossas escolhas, que às vezes nos fazem esquecer dessa habilidade tão primordial e incrível que nós, seres humanos, carregamos na alma.

6 Respostas to “Alma estrangeira”

  1. lascomadres 18/04/2011 às 16:32 #

    Amiga, sua alma estrangeira é muito especial. Adoro quando vc compartilha suas experiências e seus pensamentos.
    Um beijo grande em toda a família!

  2. Pat Guanais 18/04/2011 às 16:55 #

    Obrigada comadre querida….
    O duro da alma estrangeira é a sua eterna companheira – a saudade!
    Saudade de ser sua vizinha, de encontrar a Manu no parquinho, das possibilidades de encontro que tantas vezes adiamos…é isso. A vida vai seguindo, as asas batendo e quem sabe onde vamos parar, né?
    beijos
    Pat

  3. Bela 18/04/2011 às 17:17 #

    Pat, que texto lindo! Adorei! Sabe que eu penso sempre a mesma coisa dos meus pais, que tiveram 4 filhas! Admiro demais a coragem deles e nunca esqueço da minha mãe carregando a gente pela mão no Centro de Porto Alegre para ir ao cinema. É muita coragem! Te admiro muito também pela tua trajetória. E concordo plenamente que a gente tem que baixar as expectativas e se adaptar às novas situações para ser feliz! Dá muito certo, sim! Grande beijo e continue escrevendo!

    • Pat Guanais 19/04/2011 às 03:14 #

      Bela querida,

      Muita coragem, também outros tempos né? Lembro de quando ia passar férias na chácara do meu avô no interior da Bahia e pegava a bicicleta e saia com a criançada de lá, pegávamos uma estrada de barro para chegar até o centro da cidade, enquanto minha mãe ficava em casa tranquila, esperando a gente voltar para a hora do banho. Hoje em dia não consigo imaginar essa situação e sinto uma grande pena por que essa coisa simples, de vidinha tranquila parece tão perdida…Por outro lado a gente vai buscando outros caminhos, outras memórias e seguindo feliz! 4 filhas…..que coragem né? rsrsrsrsrs
      beijos
      Pat

  4. Giulianna 18/04/2011 às 22:00 #

    Pat, como eu gosto de ler seus textos! Atuais e profundos… Como é verdadeira essa experiência de mulher, mãe, esposa, filha, amiga e querreira! Beijo enorme!

  5. Ana Maria Caldeira de Sousa 14/05/2011 às 20:59 #

    Pat, linda a sua hisória do seu ( vosso) passado de viagens em familia. Recordo uma das vezes que vieram a Portugal, ainda pequeninas, Mauricio ainda mal andava. Voçê e Let quiseram ir andar no Autocarro de dois andares, tipico de Lisboa. Lá fomos as tres até á baixa de Lisboa no dito autocarro. O que voçês deliraram lá na janela do 1º andar. Depois voltamos para casa no Metro, foi uma festa para voçês. Recordas? E na Feira Popular, na montanha russa? Os gritos que davamos? Bons tempos que deixam boas recordações para todos. Gostei muito da tua escrita. Continua. Beijinhos da prima.

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