Sentir é mais importante que saber

10 nov

Fonte: Revista Galileu

por Sergio Chaia

Em um mundo de mudanças rápidas, intuir e compreender é mais importante do que acumular conhecimento.

Há mais de 20 anos, quando eu era um aluno de uma das faculdades mais importantes do Brasil, a informação era um produto restrito, fornecido com qualidade somente nas melhores escolas de graduação, acessíveis a poucos. Quem frequentava essas instituições era estimulado a usar o lado esquerdo do cérebro, treinado à racionalidade extrema. A moda era construir modelos matemáticos, estatísticos e de previsibilidade para tudo. Essas eram as competências mais procuradas nos aspirantes a executivos.

Com a internet e o Google, a informação como diferencial se tornou irrelevante. Uma prova é que o Massachusetts Institute of Technology (MIT), um dos principais formadores de cérebros do mundo, passou a oferecer os conteúdos de seus cursos de graça na web. Mas mesmo na era do acesso e da colaboração, não percebo uma evolução no modelo educacional: o foco continua sendo a corrida do saber. Vejo as crianças sendo alfabetizadas cedo demais, com muitas instituições de ensino e pais se vangloriando dessa precocidade. Parece que escrever, multiplicar e usar computadores cada vez mais cedo trarão mais competitividade para os profissionais do futuro.

Em vez de apenas conhecer, no entanto, o fundamental no mercado de trabalho — e na vida — será interpretar e harmonizar informações aparentemente desconexas. E, para isso, precisamos mudar o jeito que ensinamos. Em seus livros O Cérebro do Futuro e Motivação 3.0, o autor de best seller Daniel Pink fala da importância de se usar o lado direito do cérebro, responsável pelas emoções, pela intuição e pelo pensamento não-linear. Ele dá exemplos da importância de competências como design e storytelling, a capacidade que temos de inspirar os outros por meio de histórias verdadeiras, contadas com emoção. Fala ainda sobre sinfonia, que é a arte de unir informações aparentemente desconexas de maneira produtiva, presentes em gênios como o pintor surrealista belga René Magritte (1898-1967) ou o chef catalão Ferran Adrià. Essas são ferramentas essenciais no dia a dia dos líderes de empresas. Afinal, liderar é ter a capacidade de comunicar sua visão de maneira memorável e motivadora. Tenho isso em mente, por exemplo, quando elaboro uma apresentação para investidores. Em vez de usar um monte de gráficos e números, prefiro contar uma boa história. Com isso, evoco emoções que fazem parte da minha vida para me conectar com as pessoas.

Confio tanto na importância de se desenvolver as emoções e a capacidade de reflexão, e não apenas em acumular conhecimento, que coloquei meu filho em uma escola Waldorf, pedagogia que privilegia a formação física, anímica e espiritual. Ela é citada por Pink como uma das mais adequadas ao novo momento do mundo, marcado por mudanças constantes. As crianças aprendem a olhar para si mesmas, a desenvolver conexões e a refletir, estimuladas por contos e artes manuais. E não por uma obrigação de obter uma grande quantidade de informações, algo que perdeu o sentido em uma época em que entender, analisar e escolher seu caminho é mais importante que saber tudo.

*Sergio Chaia é presidente da empresa de telecomunicações Nextel no Brasil

Uma resposta to “Sentir é mais importante que saber”

  1. Pat Guanais 29/11/2010 às 23:02 #

    Muito bom amiga….
    Estou tentando colocar em dia a minha leitura. Percebi que andei perdendo alguns (ótimos!) posts no período em que estive em Salvador e durante a montanha russa da nossa adaptação aqui….
    bjs

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