Para as crianças falarem baixo

3 nov
fonte: Blog Mulher 7×7,  Isabel Clemente

Agora que as meninas dividem o quarto, a hora de dormir virou uma festa. Tem criança pedindo história, outra brigando para sair do berço, uma pede água, a outra imita – “a-ba, a-ba, a-ba, papaiê” – e lá estava o papaiê sozinho, tentando acalmar uma, consolar outra, quando a mãe chega. Logo agora que a mãe chega você acha que alguém vai dormir?

A mãe, vendo a balbúrdia, pede pelarmordedeus para a mais velha falar baixo. Gente, essa criança não consegue falar baixo? Diminui o som, filha, diminui o som… Baixinho… Sua irmã tem que dormir…

Olha, a fada rabugenta que mora na Montanha Sem Ruído, um dia, castigou toda a floresta. Botou todo mundo rouco porque queria silêncio. Ela tinha horror de barulho, conhece essa? “Conta, mamãe, conta!”.

Foi, num ataque de bobeira, que a fada decidiu que até o leão ficaria rouco. O lobo não poderia uivar. Os macacos tinham que brincar em silêncio. Os grilos ficaram mudos. Até os passarinhos, coitadinhos, deixaram de cantar. E assim os sons da floresta desapareceram por encanto. A fada amava o silêncio, mas não tinha percebido que os animais precisam gritar. De vez em quando. A mamãe leoa não podia mais alertar seus filhotinhos sobre algum perigo.

Minha plateia arregalou os olhos, horrorizada.

Mas nem tudo estava perdido. Havia uma princesa capaz de dar um jeito na situação. Era uma menina muito esperta que vivia gritando em casa, o tempo todo. Nunca falava baixo! Um dia, a mãe dela, uma rainha muito bondosa, soube do silêncio na floresta. E temendo que qualquer hora a doida da fada jogasse feitiço até na princesinha barulhenta, propôs que elas fossem juntas até à Montanha Sem Ruído explicar para a fada que o importante era gritar na hora certa, e fazer silêncio quando devia.

“Eu quero ser a princesinha!”

Você sabe a diferença entre gritar e falar baixo, princesinha?

Os olhinhos arregalados balançaram a cabeça positivamente.

Então vamos, princesa, propôs a rainha-mamãe-cansada e recém-chegada-da-rua que nem banho havia tomado.

Vamos à casa da fada rabugenta. Andaram pela floresta da sala até o corredor. Passaram por um cavalheiro silencioso, mexendo em algo brilhante que parecia um computador, mas deixaram ele em paz. Era preciso fazer toda a caminhada em silêncio. Pararam à beira de uma nascente para a rainha lavar as mãos. Chegaram finalmente ao quarto-castelo onde uma cama enorme feita de sonhos aguardava o descanso da fada rabugenta. Nesse momento, a rainha-mamãe troca de personagem e se joga na cama. A princesa pede permissão para falar com a fada. Pode falar, consente a fada-mamãe agora deitada.

“Você não pode tirar as vozes de todos os animais da floresta porque agora a mamãe-leoa nem pode mais avisar os filhotes de algum perigo!”, diz a treinada princesinha, que sabe muito bem a diferença entre gritar e sussurrar, sobretudo quando sua irmã-princesinha-neném dorme em seu berço real, sonha, esperançosa, a rainha-mamãe.

A fada, desconfiada, porque toda rabugenta é desconfiada, pergunta:

– Por que você me pede isso? Eu amo o silêncio. Adoro meu castelo em paz. Aqueles animais eram muito barulhentos. Você faz barulho?

A princesinha de olhos arregalados balança a cabeça negativamente.

– Huummm…. – resmunga a fada – você acha que os animais saberão quando podem gritar e quando devem falar baixo?
– Sim, eles sabem.
– Pensando bem…eu até gostava de ouvir os passarinhos cantarem de manhã…Tá bom, princesinha, vou atender ao seu pedido, com uma condição. Se eu ouvir você gritar quando sua mamãe pedir silêncio, eu jogo uma magia em você também, que nem a Ariel que ficou mudinha da silva!

A princesinha balança a cabeça positivamente.

A fada vira rainha-mamãe novamente e deixa, com a filha, o castelo da Montanha Sem Ruído. Passam pela floresta, que agora exibe os barulhos de sempre, passam novamente pelo belo cavalheiro e voltam ao seu castelo que fica na sala.

– Conta de novo?

– Não, né, agora você vai dormir. Eu preciso escrever um texto.

E vocês acham que adiantou? Claro que não. Ela chorou, protestou, disse que queria comer, beber…Aí eu fui incomodar o belo cavalheiro da tela brilhante, deixei que ele resolvesse o fim da história (com outro enredo mirabolante) e fui tomar banho porque eu realmente tinha um texto para escrever

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