Entre caixas e saudades

10 set

Comadres queridas. Saudades.

Näo pensem que as esqueci, muito pelo contrário. O tempo passa, a vida vai entrando nos eixos, a adrenalina diminue só um pouquinho e a gente vai dando espaço para as memórias gostosas do que ficou pra trás. 

Depois de quase 3 meses, a nossa mudança do Brasil chegou. Finalmente.

Receber as nossas coisinhas, rever as nossas memórias é uma experiência muito interessante. Foram 3 meses e muito do que nos pertencia já se mostrava täo estranho, täo fora do lugar. Ver a reação da minha filha foi algo surpreendente. Uma mistura de excitação com a “mágica” que aconteceu (sim, porque de repente o seu mundinho foi empacotado e sumiu do seu pequeno mapa!) e também de estranhamento. Nos primeiros dias, não queria entrar no quarto sozinha. Dizia que estava com medo. Primeiro teve medo do Elmo de pelúcia, depois da tão adorada boneca Lola, depois uma coisa aqui outra ali. As pelúcias foram para o baú. O medo foi claramente verbalizado e a solução prontamente atendida.

Entre abrir as caixas e fazer uma nova “limpa” com o que não se adequava mais, vieram as lembranças de um tempo bom. “Confessei” ao meu companheiro que gostava muito de Brasília. Me veio a lembrança do céu mais do que azul, dos dias frescos do inverno, da luz da manhä sempre tão acolhedora, das idas à Chapada dos Veadeiros, à Pirenópolis, os banhos gelados de cachoeira, da Água mineral….Mas mais do que tudo lembrei dos amigos. Brasília sempre foi muito generosa comigo. Lá nasceu minha filha, lá nasci eu-mäe. Lá conheci a Carmem (minha doula), um anjo de sensibilidade ímpar que acompanhou a maior transformaçäo pela qual passei. Conheci a minha comadre Rita, a Juliana, a Angélica, a Claudia, a Alice, a Júlia, a Kárin, a Renata, mulheres que dividiram comigo os 3 anos mais especiais que vivi até então. Me sinto rica. Me sinto abençoada. Me sinto feliz. E me sinto também saudosa desse tempo, mas com uma energia forte me impulsionando adiante. Sem expectativas, apenas com a certeza de que onde quer que vá estarei sempre plena, aqui dentro de mim.

Quando as caixas diminuírem, prometo escrever sobre a nova vida, a nova cidade, a nova estação – outono, minha preferida. E também sobre algumas pessoas que começam a cruzar o meu caminho e que novamente me surpreendem pela força e coragem. Uma delas é a Fátima. Nascida na Guiné, Africa, francesa no passaporte e na elegância, perdeu o marido no terremoto ocorrido no Haiti há pouco mais de oito meses. O seu companheiro era um jovem muito bem sucedido, correspondente da ONU, com mestrado na Sorbonne e doutorado pela Harvard. Futuro brilhante pela frente. Mas quis o destino que ele saísse do seu posto em Santo Domingo, República Dominicana, para participar de uma reunião no país vizinho, no fatídico dia do tremor. A Fátima ficou viúva e se mudou para DC com o seu filho de 4 anos, aqui está enterrado o seu marido. Ainda vivendo o luto, decidiu voltar a estudar e está se preparando para fazer um mestrado. Somos colegas nessa nova empreitada, fazemos curso juntas. Em comum o papel de mãe, o nome da minha filha (!) e o desejo de seguir novos rumos….    

A casa entulhada enquanto recebe a mudança

4 Respostas to “Entre caixas e saudades”

  1. Juliana 10/09/2010 às 18:47 #

    Imagino que não deve ser fácil, sua escrita toca sem eu nem ter vivido essas dificuldades… Entretanto, é também um alento o latente sentimento de esperança, de que tudo ficará muito melhor, tanto seu quanto de sua nova amiga Fátima! Impressionante!

    Saudações brasilienses – terra em que os calangos do cerrado ficam de lábios rachados sob o céu azul!

    • Pat Guanais 10/09/2010 às 23:19 #

      oi Ju,

      De fato as dificuldades existem em qualquer circunstancia e a gente vai aprendendo a lidar com elas a medida que elas nos desafiam. olho para a Fatima e penso no quao deve ser sofrido e dificil, mas ela nao transparece o sofrimento que carrega, ao contrario cultiva planos, carrega a foto do filho lindo na sua pasta e sorri com muita frequencia. admiravel. cada uma dessas pessoas me toca de uma forma especial e me faz querer ser um ser humano mais leve, mais corajoso, mais sorridente!

      saudades dos ipes amarelos…..rs

      PS. Nao consigo usar acentos pelo meu iPad, desculpa….

  2. Ju 11/09/2010 às 20:33 #

    Lindas palavras, amiga, emocionantes. Os ipes amarelos estão esplendorosos e mandam lembranças.
    Beijos

  3. Julia Henning 12/09/2010 às 23:44 #

    Amiga,
    que vivência forte e bonita que vocês está passando com a sua filha! Pense na vantagem que é ser uma mãe atenciosa e cuidadosa com os sentimentos da Fátima e poder ajudá-la a entender esses novos sentimentos que surgiram com essa mudança. Brasília não é a mesma sem vocês mas torço para que você vá criando sua nova história aí na gringa, tão bela quanto!
    Beijão!

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