Menino prodígio

7 set

Revista Galileu

Américo Martins, de Londres

Criança britânica de dois anos e nove meses domina mais de mil palavras, é fascinada pela história do Império Romano e adora documentários sobre como as coisas funcionam

 

“Depois que a gente colocar o Oscar para dormir, pode ligar que conversamos.” Foi assim que os pais de Oscar Wrigley, um menino britânico de dois anos e nove meses de idade, deram o O.K. para a entrevista que Galileu tentava havia duas semanas. Só depois da conversa deu para entender por que o casal é tão preocupado com o sono do garoto. Ele dorme apenas quatro horas por noite. Esse é um dos efeitos colaterais daquilo que dá dor de cabeça aos pais e fama ao garoto: Oscar é um gênio.

E não é fácil colocar um geniozinho para dormir. Como Oscar é muito ativo, a família tenta desacelerá-lo no início da noite, quando ele vai para a cama – por volta das 20h, britanicamente. “Nós damos banho e paramos de brincar, para que ele se acalme bem”, diz o pai, Joe Wrigley. “Com Oscar já deitado, lemos historinhas infantis comuns. Entre as que ele mais gosta de ouvir estão as de Peppa Pig.” E não dá para ser muito democrático nessa hora, pois, se a leitura noturna fosse uma escolha de Oscar, provavelmente os pais teriam de ler uma obra para adultos, que despertam o interesse do menino.

Acordado, ele tem alguns hábitos similares aos da maioria das crianças britânicas da sua idade. Passa, por exemplo, horas diante da TV devorando episódios das animações de Bob the Builder – um pedreiro que constrói e arruma qualquer coisa – e Thomas the Tank Engine – uma locomotiva azul muito esperta que trabalha duro e lidera um grupo de trens, ônibus e outros meios de transporte na imaginária ilha de Sodor. Mas isso não é tudo de que ele gosta na telinha. “Oscar tem acompanhado com muita atenção uma série do Discovery Channel chamada How It Is Made (Como É Feito), mostrando como várias coisas são produzidas”, diz Joe. E essa é apenas uma das características que diferenciam Oscar de gente com menos de três anos. Ele já domina um vocabulário de mais de mil palavras e se interessa por assuntos tão diversos como a reprodução de pinguins na Antártida ou a história do Império Romano.

Oscar entrou para a história, em agosto deste ano, como o garoto mais novo a ser aceito como membro da Mensa – uma associação exclusiva para pessoas com QIs (quociente de inteligência) altíssimos. O convite para se juntar à entidade foi feito depois de ele ter sido submetido a um teste de QI pelo doutor Peter Congdon, especialista na área e criador do Gifted Children’s Information Centre, em Solihull, na Grã-Bretanha. Congdon conduziu o teste em agosto deste ano e concluiu que o menino está entre as crianças mais inteligentes que já viu – embora afirme que tenha encontrado vários casos similares nos últimos anos. “Oscar, sem dúvida, tem uma inteligência superior e é muito esperto”, diz o doutor. O especialista aplicou o teste de QI conhecido como Stanford-Binet, que tem uma escala que vai até 160. Mas em seu teste o menino britânico passou dessa escala, o que quer dizer que ele tem oficialmente um QI “de mais de 160” na escala Stanford-Binet. O feito acabou levando boa parte da imprensa mundial a comparar a inteligência do pequeno Oscar à do físico Albert Einstein (1879-1955), que estaria, em tese, na mesma faixa de QI. Parte disso, segundo Congdon, é especulação, já que Einstein nunca fez um teste de QI. Mas, de toda forma, o resultado do teste não deixa dúvidas sobre o potencial de Oscar.

Clube dos gênios: no colo da mãe, Oscar lê a revista da Mensa, uma associação que reúne apenas pessoas de QI altíssimo; ao ser aceito pela entidade em agosto deste ano, o menino tornou-se o sócio mais jovem

Os pais do menino – Joe é casado com Hannah Wrigley – dizem que começaram a perceber que o seu filho era excepcionalmente inteligente quando ele completou 18 meses. Na ocasião, a família tirou uma semana de férias, e os pais, impressionados com a articulação verbal do garoto, resolveram contar quantas palavras ele conhecia. “No fim daquela semana de férias, nós concluímos que ele falava pelo menos 600 palavras”, diz Joe. Naquela faixa etária, o normal são cerca de 20. Na mesma época, Oscar já conhecia todo o alfabeto e era corriqueiro ele brincar com as letras ao tomar banho. Quando completou dois anos, ele já sabia mais de mil palavras.

Apesar de o seu vocabulário e articulação continuarem aumentando de forma impressionante, para os pais, a prova final da inteligência singular do menino veio poucas semanas depois do teste das palavras. Joe lembra: “Um dia nós visitamos um museu. Naquela noite, Oscar sentou-se na cama e recitou: ‘Os romanos construíram o templo de Cláudio’. E nós dois pensamos: ‘Isso não pode ser normal!'”.

Depois desses sinais, os pais de Oscar procuraram profissionais para confirmar que o garoto tem mesmo uma inteligência fora do comum. Eles também decidiram permitir que Oscar se associasse à Mensa, porque precisavam de ajuda para desenvolver o potencial do menino. Os dois esperam encontrar, por meio da associação, outros pais que tenham filhos superinteligentes para trocar experiências e informações. O pai diz que nunca teve a intenção de expor Oscar ou de mostrar para o mundo que ele e sua mulher deram à luz um geniozinho. “A razão de termos levado Oscar para fazer um teste de QI tinha mais a ver com o lado negativo da coisa. Com o fato de ele, por exemplo, não dormir muito.”

No momento, Joe e Hannah estão conversando com as autoridades do conselho municipal da cidade de Reading, na Inglaterra, onde moram, para tentar encontrar possíveis opções para escolarizá-lo. Pois, mesmo no Reino Unido, o sistema educacional não tem muitas alternativas para uma criança como Oscar. “Ele está o tempo inteiro tentando descobrir algo novo e precisa ser estimulado constantemente. Ele fica muito impaciente, por exemplo, quando brinca sozinho. Oscar prefere a companhia de adultos, já que pode perguntar e aprender coisas novas”, diz Joe. Segundo ele, o filho demonstra aborrecimento e tédio quando participa de atividades infantis com um grupo de crianças de sua idade.

Por enquanto, Joe e Hannah decidiram continuar educando o filho em casa. Os dois dizem que tentam encorajar Oscar a se engajar em qualquer atividade que lhe desperte o interesse. As manias atuais parecem ser a música e a geografia. Joe diz que acaba de comprar um globo terrestre para o filho, que está se interessando pelos países e suas capitais. E, quando passeia de carro com os pais, o menino senta-se em sua cadeirinha no banco de trás e ouve atentamente o som que vem dos alto-falantes. “Quando escuta uma música, ele finge que está regendo com os dedos”, diz o pai. “E aí ele começa a dizer quais instrumentos estão sendo tocados, cada vez que eles começam a aparecer na melodia.” Oscar aproveitou a chance dada pelos pais e já pediu o seu próximo presente de Natal: um saxofone.

“Eu acho que a inteligência de Oscar está relacionada aos genes dele. Hannah é muito esperta. Ela tem um diploma em ciências médicas pela Universidade de Birmingham. E eu também tenho um diploma. Além disso, o irmão de Hannah [Jonathan Masters] foi para a universidade estudar computação quando tinha apenas 13 anos de idade”, afirma Joe, que é especialista em tecnologia da comunicação.

De origem genética ou não, a inteligência de Oscar certamente apresenta grandes desafios para a sua família, interessada como a maioria dos pais em dar ao garoto as melhores oportunidades para desenvolvimento pleno. “O fato de Oscar ser tão inteligente não é apenas uma bênção. Há um lado difícil de lidar, já que é muito mais complicado para um menino como ele se integrar à sociedade”, diz Joe. Ele lembra que as crianças maiores, com quem Joe gosta de estar, passam o dia todo na escola, enquanto o menino brinca – e vê documentários – em casa.

O doutor Congdon reconhece o problema, mas sugeriu recentemente que os pais ofereçam a crianças tão inteligentes como Oscar uma rotina balanceada com trabalho mental, muita interação social e, claro, uma infinidade de brincadeiras. “O mais importante é evitar colocar muita pressão sobre a criança”, diz o doutor. “É sabido que as pessoas que viveram plenamente sua infância são as mais bem preparadas para enfrentar a fase adulta.”

É por isso que Congdon e a família Wrigley criticam a suposta associação de Oscar com Einstein. “Isso não passa de uma boa manchete para a mídia”, diz Joe. O doutor vai além: “Um gênio é alguém que atinge alguma coisa, constrói alguma coisa. Um Wagner, um Da Vinci. Até um Pelé, que foi gênio em sua atividade. Ainda é cedo para esperar isso do menino”. Como diria o outro gênio, tudo é relativo.

QIS GENIAIS
  + de 160 >>> ALBERT EINSTEIN
Físico alemão (1879-1955) ganhador do Nobel em 1921 e criador da Teoria da Relatividade
+ de 160 >>> STEPHEN HAWKING
Físico britânico de 67 anos, doutor em cosmologia e autor de Uma Breve História do Tempo
+ de 160 >>> BILL GATES
Empresário americano de 54 anos, é fundador da Microsoft e detém o título de homem mais rico do mundo
160 >>> ISAAC ASIMOV
Escritor de ficção científica (1920-1992) nascido na Rússia; é autor de clássicos como Eu, Robô
141 >>> ADOLF HITLER
Ditador (1889-1945) nascido na Áustria e que levou a Alemanha ao delírio do 3º Reich e à 2ª Guerra
140 >>> MADONNA
Cantora americana de 51 anos e intérprete de “Material Girl”, “Like a Virgin” e “Papa Don’t Preach”
136 >>> SHARON STONE
Atriz americana de 51 anos, atuou em Instinto Selvagem (1992), Cassino (1995) e Alpha Dog (2007)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: