A compreensão é a linguagem do amor

24 ago

Fonte:  Mulher 7×7

Como todo mundo (ou quase todo mundo), minha capacidade para reter a cambulhada de informações que busco todos os dias – para fins profissionais e particulares – tem limite. Por isso, ao ler algum livro sobre educação infantil, busco um ou outro ensinamento que, acredito, será o mais útil de todos, se eu pudesse escolher do que gostaria de lembrar. Costuma funcionar: a coisa gruda na cabeça.
Um desses ensinamentos que grudaram na minha cabeça – embora na prática nem sempre funcione by the book – recomenda escolher as batalhas que valem a pena. Taí algo muito útil para a gente não entrar naquela de dizer que é muito cansativo convencer uma criança de quase 5 anos de idade a fazer tudo da maneira como você acha que é o melhor para ela, da hora de levantar até dormir. Isso partindo do pressuposto que nós, pais, temos essa mania de achar que sabemos o que é melhor para elas. Tipo a roupa que vai usar. Temos que escolher o tempo todo? Acho que não. E procuro não fazer disso um cavalo de batalha, desde que ela não vista um gorro e uma saída de praia por cima da meia-calça  para ir jantar com a gente num restaurante.

Claro que estou brincando. Não sou tão mandona assim. Ela tentou fazer isso ontem e mudou de idéia por conta própria. Depois de ouvir nossa opinião, bateu o bom senso na criança. Crianças também têm bom senso. Mas eu falava das batalhas corretas.
Até que outro dia, numa conversa com uma amiga, falávamos sobre nossas tentativas, às vezes erradas, às vezes certas, de participar de forma autêntica da vida das crianças, com brincadeiras, fantasias e demonstrando nossa  empatia.

Quantas vezes você já disse ou viu outro dizer assim para uma criança: pare de bobagem, vai chorar por causa disso? A resposta é “vai chorar sim”. Provavelmente ela vai chorar por causa de algo cuja importância escapa aos nossos olhos treinados para pensar coisas sérias, tomar decisões importantes, lidar com problemas muito mais torturantes. Provavelmente a criança vai chorar porque desmontamos a casinha de lego que ela acredita jamais conseguir reconstruir igual, ou porque jogaram fora aquela colagem maluca de papel picado que era uma armadilha mágica capaz de prender qualquer assombração que entrasse no quarto dela.
Nós, adultos, muitas vezes nos esquecemos que o “importanciômetro” da criança funciona numa freqüência bem diferente da nossa.

Não quero dizer com isso que vamos abrir mão do nosso papel de ensiná-las a discernir o certo do errado, o grave do desimportante. Não é isso. Estou falando daquela nossa capacidade de ver o outro sob a perspectiva dele.

Isso tudo calou fundo em mim quando li “A auto-estima do seu filho”, de Dorothy Corkille Briggs. O capítulo entitulado “A segurança da empatia” sugere exatamente isso: que a gente lembre daquela vez em que, depois de desabafar com alguém, ouvimos como resposta um inútil “não fica assim não porque tudo dará certo”. Obrigada pela força, mas não era bem isso que eu esperava ouvir. Não dá vontade de falar mais nada, né? Às vezes queremos ouvir simplesmente algo como “se eu estivesse no seu lugar, me sentiria da mesma maneira, isso dói, isso chateia, mas de repente…”, aí a coisa envereda pela mensagem positiva.

Descartar o sentimento alheio é das piores reações que podemos ter quando o outro busca consolo. Não seria diferente com as crianças. Empatia é ser compreendido pelo nosso ponto de vista. É a verdadeira compreensão, diz a autora. É mais do que mera simpatia. É sobretudo não tentar negar o sentimento do outro.

Em vez de sabotar o escuro com um comentário tipo “bobagem ter medo do escuro porque não tem nada lá”, uma história que resgate a criança que fomos e como superamos o nosso medo da escuridão surtirá mais efeito. Para refrescar minha memória, reli o capítulo do livro que trata do assunto e deixo aqui um trecho que considero muito bom. Usem à vontade.

“A empatia é uma prova vigorosa de interesse. Quando você deixa de lado, temporariamente, o seu ponto de vista para estar com seu filho, você demonstra um respeito fundamental por ele, tratando-o como um indivíduo à parte, cujo ponto de vista pessoal tem importância. A empatia diz ‘a maneira pela qual você vê as coisas é importante para mim. Vale o meu tempo e esforço para estar com você em seus sentimentos. Eu realmente quero compreender como você é, porque eu me importo (…)’. A empatia tem importância fundamental para que as linhas de comunicação fiquem abertas. As crianças deixam de falar quando se sentem sempre incompreendidas”.

Pensando bem, não está aí a base das grandes amizades?

2 Respostas to “A compreensão é a linguagem do amor”

  1. Pat Guanais 25/08/2010 às 15:13 #

    Comadre querida,

    Muito bom seu texto. Perfeito.
    Tenho vivido isso a cada dia com as dificuldades de adaptacao da minha pequena. agora ela esta 10, mas passamos dias duros por aqui. pensei nisso tudo que vc pontuou. Nao dava pra dizer pra ela que nao chorasse a cada dia na nova escola, porque era duro mesmo. Nao dava para dizer o quanto a escola era bacana, se ela voltava sempre frustrada por nao ser compreendida. Pensei nas minhas proprias dificuldades. lembrei de quando comecei a minha 7 serie em uma turma nova, no Vieira ( um colegio grande em Salvador) e de como passei dois meses sentindo nauseas todos os dias que minha mae me deixava pela manha. Eu nao sabia o porque, mas era o desafio do novo e era dificil. todos os dias aqui eu dizia para Fatima que entendia que era dificil ir para a escolinha, ficar longe da mamae e do papai, nao conseguir entender o que os coleguinhas diziam. Mas dizia sempre que esse momento ia passar. Que a mamae tambem teve que aprender ingles um dia e que muitas coisas eu tambem nao sei ainda, mas vou aprender. Eh impirtante tambem dizer que tudo bem chorar. Ela chegava muito frustrada por ter chorado. Dizia: mamae eu chorei na escolinha. E depois de longa conversa eu dizia que tudi bem chorar, que a mamae tambem chora quando esta triste, ou com saudades e ate quando esta feliz. Enfim amiga, lindo seu texto. bateu certo com tudo que tenho vivido aqui. A escolha das roupas eh uma comedia mesmo, por que alem de tudo tem o fator climatico! Roupa quente quando faz 38 graus la fora e roupa fresca nos dias Chuva…..e la se vao horas de negociacao……rs beijos beijos e muita saudade…..

    • lascomadres 25/08/2010 às 17:13 #

      Pat, esse texto eu tirei do blog Mulher 7×7 e publiquei no Las Comadres por ele expressar também muito do que eu tenho aprendido com os meus filhos. Fico satisfeita que ele tenha vindo a calhar pra vc, amiga.
      Que Deus os proteja…
      Bjs de saudades.

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