Para não chorar

14 jul

Cris Guerra

Meu filho completou três anos e ainda não largou a chupeta. Ele é inteligente, espirituoso, atento a tudo o que vê. Tem boa dicção, conjuga os tempos verbais com capricho e nos surpreende com observações perspicazes. Mas, em dados momentos do dia, volta a ser um bebê quando pede o “biquinho”.
Se dependesse de mim, ele nunca teria experimentado um. Mas a teoria é perfeita até que a gente a coloque em prática.

Ao chegar da maternidade, com um dia de vida, ele estava sonolento demais para conseguir mamar e, faminto, não conseguia dormir. Para meu espanto, a enfermeira contratada para cuidar dele – e, por que não dizer, para cuidar de mim também –, sugeriu a chupeta para ajudá-lo a dormir, de modo que ele acordasse forte para a primeira mamada em casa.

E como discordar de uma mulher que segurava o menino com uma só mão e calava seu choro em cerca de seis segundos? Ao olhar para meu bebê relaxado em seu ombro largo, muitas vezes pensei em pedir um espacinho pra mim também. A sugestão foi a primeira de uma série que me levaria a requerer a canonização daquela que tinha no currículo nada menos que três dezenas de recém-nascidos.

Por sorte, eu havia comprado uma chupeta. Embora estivesse certa de que não precisaria dela. Ah, as teorias que fazemos sobre a educação dos filhos que ainda vamos ter. E, em cinco minutos, a mãe de primeira viagem deixou para trás uma de suas fortes convicções, cultivadas por anos a fio.
De chupeta na boca, Francisco dormiu como um anjo. E assim se seguiram os dias, as noites e as chupetas, que chegaram a ser 14, ao todo, tamanho era o meu pânico de que (me) faltasse o objeto – e a paz. “Logo a gente tira esse hábito”, eu pensava, otimista. Continuo pensando.

Volto alguns anos mais e chego à minha infância: também fui adepta da chupeta. E não me lembro de tê-la largado deliberadamente, já que um gato a engoliu antes. Esta é a história em que acreditei até a adolescência, e que contava para os amigos, consternada. Até minha mãe ouvir e explicar, às gargalhadas, que aquele tinha sido um pretexto para eu me desapegar do bico.

Era fácil acreditar. Naquele tempo, havia talvez um único modelo de chupeta, para toda e qualquer idade, provavelmente na cor “chupeta”. Chupeta era igual grampo de cabelo e pomada Minâncora: chupeta era chupeta e pronto. Para nós, crianças do século XX, não era difícil crer que, uma vez engolida pelo gato, não adiantava mais chorar.

Hoje, não. Há uma Araújo em cada esquina – e o meu filho sabe disso. Ali, as chupetas ocupam uma área generosa da seção de bebês, em uma variedade cruel que perde apenas para a categoria de absorventes femininos. Escolher um bico para o bebê torna-se tarefa prazerosa para uma mãe como eu, que tem o apoio incondicional do objeto para ver seu filho mais calmo. De todas as cores, estampadas ou lisas, austríacas ou alemãs, do Cruzeiro ou do Atlético, normais ou aeradas ao redor da boca.
Ah, como eu gostaria de poder comprar a minha e me calar serena, em um determinado momento do dia. Pediria também a fralda de pano e me encostaria quieta na cadeirinha do carro, observando a paisagem enquanto alguém o dirigisse.

Está certo, há o problema da arcada dentária. E outros mais, invisíveis, aterrorizantes, porque os imaginamos, ao invés de vê-los. Mas me parece que, largando a chupeta ao completar um, dois ou três anos, é invariável que a criança de hoje use aparelho fixo. E a puberdade passa a se dividir em quatro fases: espinhas, ortodontista, banda de garagem e revolta contra os pais, não necessariamente nesta ordem.

Desconfio que, ao levar o meu filho a abandonar sua chupeta mais cedo o farei ir em busca de seus substitutos. Todos nós os temos: vícios, manias, hábitos de que não nos livramos, os mais variados, corriqueiros ou absurdos. Está certo que serão mais aceitos socialmente que o do ex-namorado da amiga de uma amiga, que aos 29 anos tomava uma mamadeira antes de dormir.

O fato é que o tempo voa e o momento em que meu filho pede a chupeta é o único em que ele volta a ser o meu bebê. Sei que posso ser presa pela Organização Mundial de Saúde, mas confesso: não me sinto preparada para tirar a chupeta do meu filho. E, quando eu o fizer, sou eu quem vai chorar.

* Esse texto não é meu e nem da Pat. É da Cris Guerra, uma blogueira muito especial que acabo de conhecer. Eu e minha comadre decidimos reproduzí-lo porque ele reflete, de certa forma, o momento em que estamos vivendo com a Manu e a Fafa.
  

3 Respostas to “Para não chorar”

  1. Pat Guanais 14/07/2010 às 18:55 #

    Maravilhosa, maravilhosa, maravilhosa!
    Grande Cris Guerra!
    Imperdível o http://www.hojevouassim.blogspot.com e nele tem o link para o Para Francisco.
    Super recomendo!
    Bjs a todas as comadres
    Pat

  2. Lilian 14/07/2010 às 21:55 #

    Oi garotas,

    Minha experiência com chupetas é a melhor possível, detalhe eu sou dentista, tenho três filhos. Logo na maternidade eu dou chupeta para eles, hummmmm que alívio!!
    Muito melhor a chupeta que o dedo, eles se acalmam e dormem bem, quando estão em sono profundo eles saltam, problema resolvido.
    Quanto a época de largar o “bubu” deve ser em torno dos 2 anos, menos por causa de problemas dentais e mais por que nesta fase a criança precisa larga a “muleta/bubu”para começar uma certa independência emocional…. difícil né amigas?
    Dicas : Trocar por um presente que ela queira muiiiiiiiiiito, em uma viagem ficou com alguém especial desta viagem, um bebê precisa mais que ela ( ela já é grande ) e assim vai. Deu certo comigo e olha que eles eram bem apegados ao bubu!!
    Beijos
    Lili

    • Pat Guanais 15/07/2010 às 17:44 #

      Oi Lili!

      Que alívio ouvir suas palavras como mãe e DENTISTA! rs me sentia super culpada, sendo também dentista, em deixá-la usar a muletinha. Estávamos em um processo legal de diminuir o uso da chupeta no Brasil. Na escolinha ela já não usava e em casa era mais para dormir mesmo. Daí com a mudança tudo deu pra trás…foram muitas “perdas” e então não quis forçar mais uma. Pelo menos a fralda já praticamente foi largada (só tem usado à noite mesmo por que ainda rolam uns acidentes…). Quando visitei a nova escolinha dela aqui percebi que as crianças da idade dela não estavam (nenhuma delas) usando chupeta e a diretora arregalou os olhos quando eu disse que ela ainda usava. Enfim, acho que a retirada na escolinha aqui pode ser mais natural. Ela esta desejando muuuuito ir para a escolinha, então pode ser uma deixa.
      Beijos

      Pat

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